segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Par ou ímpar?

É comum ultimamente ouvirmos afirmações do tipo "há uma crise na academia" a respeito de determinado assunto. Como é possível saber se essa crise ocorre na comunidade científica acadêmica ou na academia de ginástica frequentada por quem faz a afirmação e sua imaginação?
Para entender isso é preciso antes descobrir como a comunidade científica estabelece o senso comum sobre nossa compreensão do universo que nos cerca.
Há centenas de anos alguns rituais e procedimentos consensuais se estabeleceram para determinar se realmente as ideias correspondem aos fatos ou são pura imaginação.
Um  dos processos mais respeitados e aceitos por todos é a revisão por pares. Ele consiste em
submeter as comunicações científicas a pessoas com largo e estabelecido conhecimento na área para verificarem se o artigo representa de alguma forma um avanço ou uma contribuição relevante.
As revistas mais rigorosas e prestigiosas lançam mão de dois ou três revisores para anonimamente opinarem sobre os artigos submetidos. A aceitação para publicação depende de pareceres positivos dos revisores. O prestígio acadêmico de publicações como Nature ou Science é resultado do rigor e da seriedade de seu processo de revisão.
Não esqueço do orgulho que me tomou quando fui convidado pela primeira vez para ser revisor de um periódico importante. Foi há quase 30 anos no Applied Physics Letters. Para mim significava ser reconhecido como alguém de confiança para ajudar a decidir o que deve e o que não deve ser publicado na minha área. Depois disso me tornei revisor de outros periódicos. Essa é a trajetória normal de cientistas com produção de artigos minimamente relevante. Isso foi em tempos pré-internet, em que o acesso a artigos ocorria unicamente através de periódicos impressos que ficavam na biblioteca. Só era possível ler artigos que tinham passado pelo processo de revisão.
A internet abriu possibilidades nunca antes imaginadas para o acesso à informação. Eu  já comentei isso anteriormente. A internet permite que qualquer pessoa difunda suas ideias, produção artística, científica ou literária sem depender de cair nas graças de um editor ou ter seu artigo revisado por pares. A internet subverte o processo de revisão por pares..
Isso tem vantagens e desvantagens. A desvantagem mais óbvia é a exatamente a mesma que a vantagem: qualquer um pode se dizer artista, escritor ou cientista e divulgar sua produção sem passar por revisão alguma. Pseudocientistas abundam, com sites bem organizados e com aspecto respeitoso. Basta mandar seu artigo para o ArXiv, um impressionante repositório de um milhão de artigos não revisados mantido pela Universidade Cornell. Originalmente a ideia era permitir acesso rápido aos artigos durante o processo de revisão.
No entanto, os periódicos com revisão por pares continuam conferindo prestígio aos artigos neles publicados e são a referência quando falamos da comunidade acadêmica.
Nos últimos anos vem acontecendo uma explosão dos chamados periódicos de acesso livre.  Alguns ganharam rapidamente uma reputação invejável por sua seriedade, dinamismo e obviamente o acesso livre. Esse é o caso por exemplo do PLOS One.
Mas como a internet é livre da noite para o dia surgem periódicos nada sérios. Eles podem ter fins lucrativos, apresentando um processo de revisão por pares absolutamente frouxo ou não existente para que qualquer bizarrice seja aceita mediante uma módica contribuição por parte do autor. é o equivalente a autores de livros que pagam a edição impressa de suas obras medíocres. Esses são chamados apropriadamente de editores predatórios. A outra vertente, com uma agenda política e sme sem fins lucrativos, se dedica a publicar ideias pseudocientíficas e contrárias ao que a comunidade acadêmica aceita como ciência.

Recentemente recebi a mensagem que reproduzo a seguir:

De: ASCITNews
Para: tessler

Dear Tessler, L.R. ,

AASCIT is seeking individuals with diverse areas of expertise to serve as peer reviewers or editorial board members to evaluate papers submitted to AASCIT journals. The peer review process used by AASCIT enhances the efficiency and maximizes the quality of the paper.
After reading your article Structural characterization of ZnO/ Er2O3 core/shell nanowires published in Superlattices and Microstructures, our Editorial Board speak highly of it and think you are qualified to be a Reviewer or Editorial Board Member in our journals to review papers.Now, we sincerely invite you to join us serving as a journal Reviewer or Editorial Board Member and you will get below benefits:

1. Publish your own papers with certain discounts in our journals.
2. Enriching your knowledge and broadening your horizon by reading others’ papers.
3. Get a certificate.

A reviewer's responsibilities include reviewing manuscripts for clarity, accuracy, and research rigor; identifying the strengths and weaknesses of manuscripts and so on. For more details, you can visit: http://www.aascit.org/journals/callforeditorial

You can also visit our journal page to check the journals in which you are interested. If you are interested in becoming a Reviewer or Editorial Board Member, please submit your application through our online system:  http://www.aascit.org/common/login

We are looking forward to your participation.

A tradução corresponde a:
Caro Tessler, L.R. ,

AASCIT está à procura de indivíduos de diversas áreas de especialização para atuar como revisores ou membros do conselho editorial para avaliar os artigos submetidos aos periódicos da AASCIT. O processo de revisão por pares usado por AASCIT aumenta a eficiência e maximiza a qualidade do artigo.
Depois de ler o seu artigo Structural characterization of ZnO/ Er2O3 core/shell nanowires publicado em Superlattices and Microstructures, nosso Conselho Editorial tem falado muito bem dele, o que qualifica você para ser um revisor ou Membro do Conselho Editorial em nossas revistas para avaliar artigos. Então sinceramente convidamos você a se juntar a nós atuando como revisor ou como membro do Conselho Editorial e você terá benefícios abaixo: 

1. publicar seus próprios artigos com descontos em nossas revistas.
2. Enriquecer seu conhecimento e ampliar seu horizonte, lendo artigos de outros autores.
3. Obter um certificado.

As responsabilidades de um revisor incluem a revisão dos manuscritos para clareza, precisão e rigor na pesquisa; identificar os pontos fortes e fracos de manuscritos e assim por diante. Para mais detalhes visite: http://www.aascit.org/journals/callforeditorial

Você também pode visitar a nossa página para verificar as revistas em que você está interessado. Caso você se interesse em se tornar um Revisor ou Membro do Conselho Editorial, por favor, envie seu pedido através do nosso sistema on-line: http://www.aascit.org/common/login


Contamos com a sua participação.

Essa mensagem me chamou a atenção por alguns motivos:

1) O artigo mencionado é um artigo de congresso, com poucas citações na literatura. Não é exatamente o que qualifica um revisor num periódico sério. Eles pelo menos podiam escolher um artigo mais citado para tentar massagear meu ego.
2) Eles me convidam não só para ser revisor de algum periódico, mas também para participar do Conselho Editorial. Nos periódicos sérios isso é  restrito a verdadeiros experts. Mais uma tentativa de massagear meu ego.
3) Eles oferecem vantagens para ser revisor e um certificado. Bom, para o Brasil onde exigem certificado de tudo isso é maravilhoso. Imagine eu emoldurar prestígio que vou ganhar com o certificado de revisor emoldurado na minha sala! 
4) Eu nunca tinha ouvido falar dessa AASCIT (para mim ascite é barriga d'água).

Lá fui eu buscar saber do que se trata a AASCIT. Ela tem um site que parece sério. No entanto uma busca no Google mostra que ela está na lista de editores predatórios Beall's List, na Scientific Scam, e o melhor de tudo, seu site fica na Tailândia e é classificado como de risco, apesar de AASCIT significar Associação Americana (e não tailandesa) de Ciência e Tecnologia.

Ou seja, melhor ficar longe disso.

Agora além de nos preocuparmos com pseudociência precisamos também nos preocupar com pseudoeditoras e pseudoperiódicos.
Há vários exemplos de artigos falsos que foram enviados para testar o sistema de pseudorevisão por pares de pseudoperiódicos com fins lucrativos. O mais engraçado talvez seja o de David Mazières e Eddie Kohler, que submeteram um artigo chamado "Tirem me da merda da sua lista de mail" no International Journal of Advanced Computer Technology. O texto todo do artigo consiste nas palavras Get me off your fucking mail list repetidas ad nauseam. O artigo foi aceito com relatórios muito positivos dos revisores.

Há também os pseudoperiódicos com uma agenda definida, para dar roupagem científica à pseudociência. Aqui no Brasil temos o International Journal of High Dilution Research, que se dedica a divulgar a pseudociência que "valida" a homeopatia. Uma rápida olhada no tipo de artigo ali publicado dá uma boa ideia do que se trata. O pseudocientífico Life, "uma revista internacional de acesso livre, revisada po r pares de estudos científicos relacionados a temas fundamentais nas Ciências da Vida, especialmente aquelas relativas às origens da vida e evolução de biosistemas" ficou famoso por artig que não passariam em lugar algum minimamente sério. Num deles, com o pomposo título Teoria das Origens, Evolução e Natureza da Vida o autor faz um impressionante jogo de palavras sem sentido de mais de 100 páginas, rapidamente analisado por PZ Myers. Outro, "Seria a vida especial?" é realmente especial. Começando pelo endereço que autor apresenta: Department of ProtoBioCybernetics and ProtoBioSemiotics, Origin of Life Science Foundation, Inc., 113-120 Hedgewood Drive, Greenbelt, MD 20770, USA. Como mostrado pelo mesmo PZ Myers, não só essa instituição não existe como o endereço corresponde à casa do autor, David L. Abel.
O próprio Discovery Institute, bastião americano da pseudociência conhecida como Intelligent Design, reconhece a importância da revisão por pares e disponibiliza uma lista de artigos  aceitos supostamente com revisão por pares. A lista inteira foi refutada, artigo por artigo. Desnecessário dizer que pseudociência não passa por revisão por pares séria.

Como saber se realmente há uma crise na academia em relação a determinado assunto? Fácil: busque a informação onde a academia busca: periódicos sérios revisados por pares, não pelos ímpares que estão por aí confundindo a academia de verdade com a academia de ginástica.

Exercício: procure nos periódicos sérios se há alguma dúvida a respeito do processo de seleção natural, ou da evolução.

sábado, 22 de novembro de 2014

A Cunha Tupiniquim

Em 1999 o Discovery Institute, entidade que se dedica a difundir e propagar a pseudociência que eles chamam de intelligent design (design inteligente segundo quem conhece mal a língua inglesa) publicou um documento estratégico. O documento se chama A Cunha. O documento propõe uma estratégia para aceitação e difusão do intelligent design na sociedade americana. O documento é bem estruturado, com objetivos e estratégias a médio e longo prazo.
Os principais objetivos são:
  1. Derrotar o materialismo científico e suas heranças moral, cultural e política.
  2. Substituir as explicações materialísticas pela compreensão teística de que a natureza e os seres humanos foram criados por Deus.
Quando eu li isso pela primeira vez, somado aos grafismos tão amadores e fontes de tão mau gosto, minha primeira reação foi achar que se tratava de uma fraude/piada, no estilo do Flying Spaghetti Monster. Não era. O documento é autêntico. A Estratégia da Cunha consiste em introduzir as ideias do intelligent design por alguma fresta e ir progressivamente expandindo sua influência, como uma cunha em madeira (dãããã). A estratégia inicial era fazer o intelligent design ser aceito como uma alternativa nas ciências e na pesquisa científica. Isso deveria ser acompanhado por debates em instituições de ensino e na vida em geral.

Ensine as duas teorias... Deixe as crianças decidirem. 

Felizmente a estratégia da cunha falhou fragorosamente nos EUA. Nenhuma universidade séria realiza palestras ou debates sobre o assunto (OK, o orientador do William Dembski o convidou para dar um seminário na Universidade de Chicago, mas isso não teve grandes consequências e suscitou protestos na universidade), e as tentativas de propor a interpretação do intelligent design nos currículos de ensino médio foi amplamente rechaçada. Como alertou o emérito educador Mark Terry, "Só uma revolução científica esquisita busca estabelecer sua posiçao nos currículos de ensino médio antes que a pesquisa tenha sido comprovada. Esse óbvio obstáculo será removido se a revolução for efetivamente baseada numa redefinição da ciência em lugar de novas pesquisas".

A Sociedade Brasileira do Design Inteligente foi fundada recentemente lançando um manifesto que equivale a uma carta de intenções. Esse manifesto repete, de forma adaptada às condições locais, exatamente a Estratégia da Cunha:
  1. Não são favoráveis, na atual conjuntura acadêmica,  ao ensino da Teoria do Design Inteligente (TDI) nas escolas e universidades brasileiras públicas e privadas, como também nas confessionais.
  2. Criticam o ensino da Teoria da Evolução invocando um "direito constitucional dos alunos de serem informados que há uma disputa já instalada na academia entre a Teoria da Evolução e o intelligent design quanto à melhor inferência científica sobre nossas origens". Eles devem estar se referindo à academia de ginástica ondem praticam seus abdominais. Na academia científica, onde a ciência avança através de publicações em periódicos sérios, não há disputa alguma. As discussões sérias sobre Evolução passam longe do intelligent design.
  3. Para se diferenciar do criacionismo estritamente religioso eles o enviam para "aulas de filosofia e teologia". É uma estratégia para parecerem científicos.
Intelligent design é religião disfarçada. Eles professam exatamente as mesmas ideias que os criacionistas assumidos, mas com uma roupagem pseudocientífica. É assim: a vida e o surgimento dos seres humanos não pode ter resultado da seleção natural (acho que todos os apoiadores do intelligent design faltaram às aulas de termodinâmica) e exige uma inteligência superior que decide os destinos do universo. Essa inteligência superior não precisa ser o Deus cristão, mas tem todas as características dele.

Será que a estratégia da cunha está funcionando nas terras tupiniquins?

Parece que sim.
O folclórico deputado Marco Feliciano apresentou o projeto de lei 8.099/14, que propõe o ensino de criacionismo nas escolas. O Partido dos Trabalhadores corretamente decidiu denunciar e apresentar críticas ao projeto em sua página. No entanto, o partido errou fortemente ao consultar sobre o assunto não uma sociedade científica séria como a SBPC ou a Academia Brasileira de Ciências, mas justamente a pseudocientífica Sociedade Brasileira do Design Inteligente (só não tem link porque eles não têm página na web ainda). Que posa de defensora da ciência "que o mundo empírico nos revela".

É péssimo para a ciência brasileira que o partido do governo reconheça uma sociedade pseudocientífica como autoridade acadêmica. Espero que as sociedades científicas sérias em algum momento desautorizem publicamente a Sociedade Brasileira do Design Inteligente.

O Presidente Executivo da Sociedade Brasileira do Design Inteligente afirma no Facebook que estará "em breve submetendo uma carta às sociedades e periódicos científicos brasileiros defendendo o ensino da TDI".
Será uma ótima oportunidade para que as sociedades e periódicos científicos brasileiros tomem uma posição relegando pseudociência ao seu lugar e bloqueando definitivamente a Estratégia da Cunha Tupiniquim.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Darwin e a Catedral

A Catedral da Ciência hoje em dia.
O ano era 1860. A Associação Britânica pelo Progresso da Ciência, que havia sido fundada em 1831 para encorajar o debate público e o entendimento da ciência decidiu realizar seu encontro anual em Oxford. O encontro marcaria a inauguração da nova 'catedral da ciência', o Museu de Oxford (atualmente Museu de História Natural da Universidade de Oxford). Catedral da Ciência é uma denominação mais que adequada para o local, que ainda hoje impressiona quem o visita: um grande galpão de tijolos com um pé direito de uns 10 metros e um telhado de vidro suportado por uma estrutura de ferro vitoriana, no melhor estilo das estações de trem vitorianas e lembrando muito uma catedral com telhado de vidro. Como todos os anos, o encontro reuniria o que havia de importante na ciência da época. Foi lá que ocorreu O Grande Debate.
Um dos livros mais importantes da história, Sobre a Origem das Espécies por meio da Seleção Natural havia sido publicado somente sete meses antes por Charles Darwin. O próprio Darwin não pode comparecer. Sua saúde frágil o levou a uma temporada de curas em Surrey. O Vice-presidente honorário do encontro era o Bispo de Oxford, Samuel Wilberforce. Wilberforce era um inimigo implacável das idéias evolucionistas.

Na quinta-feira 28 de junho o Professor Charles Daubeny apresentou seu artigo "Sobre as causas finais da sexualidade em plantas, com referência particular ao trabalho do Sr. Darwin...". Isso é ciência acontecendo: um pesquisador desenvolve ideias de outro pesquisador no sentido de avançar um modelo coerente da natureza. Richard Owen, contestou fazendo a afirmação exagerada que o cérebro de um gorila era mais diferente de um humano do que dos primatas inferiores. Thomas Henry Huxley, apelidado "o buldog de Darwin" por sua defesa apaixonada das ideias da evolução, era conhecido por usar a similaridade entre os cérebros dos primatas como evidência para a evolução, levantou-se e contradisse Owen educadamente. A discussão continuou nos bastidores até que na noite de sexta-feira um Huxley exausto decidiu ir para casa. Robert Chambers, outro evolucionista, pediu que ele ficasse.

Na manhã de sábado o melhor da ciência britânica se reuniu junto com uma multidão de estudantes de Oxford, clérigos além de damas e cavalheiros locais na sala de leitura da biblioteca no primeiro andar do museu. Estima-se que cerca de 700 pessoas estavam presentes. O encontro foi coordenado pelo Reverendo John Stevens Henslow, professor de botânica de Darwin em Cambridge e amigo de longa data.
A principal apresentação dessa sessão seria por parte do Dr. John W. Draper, da New York University, que leu um artigo longo e chato 'Sobre o desenvolvimento intelectual da Europa, considerado com referência às ideias do Sr. Darwin e outros, que a progressão dos organismos é determinada por uma lei'. Quando ele terminou, Henslow abriu a sessão para um debate. Algumas intervenções foram saudadas por ruidosas vaias por parte dos estudantes. Depois disso ele autorizou somente intervenções que não fossem 'mera difamação'.
Wilberforce foi então convidado a se manifestar. Ele usou os mesmos argumentos empregados na sua resenha anônima do livro de Darwin, que apareceriam um mês depois no Quarterly Review. Sua retórica às vezes lógica, às vezes pobre, sempre rebuscada cativou a audiência e foi saudada por damas acenando seus alvos lenços, estudantes assobiando nas últimas filas, clérigos aplaudindo. No final de sua intervenção, Wilberforce teria feito a famosa provocação a Huxley: "é do lado de sua avó ou de seu avô que o senhor descende de um macaco?", ao que Huxley teria respondido "Se a questão é se eu prefiro ter como avô um macaco do que um homem altamente favorecido pela natureza, possuidor de grandes meios e influência e que ainda assim usa isso com o mero propósito de introduzir o ridículo numa discussão científica tão séria e importante, eu sem hesitar afirmo minha preferência pelo macaco". Há controvérsias sobre se essa troca de insultos realmente aconteceu, mas a história é muito boa. Claro que os dois lados afirmam ter ganho o debate, mas isso é irrelevante. O episódio ilustra bem alguns pontos sobre os quais tenho insistido:

1) Discussão científica só ocorre quando uma proposta aprimora ou quebra velhos paradigmas. No caso, estamos falando de um modelo científico (a Teoria da Evolução e a Seleção Natural) que descreve de forma bastante completa a biodiversidade e os fósseis recém proposto em contraposição com os dogmas cristãos, que propunham a criação do universo e de todas as formas de vida por um ser superior todo-poderoso em 6 dias há pouco menos de 6000 anos. Não faz o menor sentido voltar a um modelo da evolução que exige um ser sobrenatural guiando o processo quando um modelo naturalista é perfeitamente capaz de dar conta dos resultados experimentais.

2) O melhor modelo não é decidido a favor de quem tem a melhor retórica, ou xinga mais, ou é mais aplaudido, ou faz o mimimi de se considerar boicotado pela comunidade científica, ou tem um blog cheio de gracejos e palavras difíceis sem significado nenhum. O melhor modelo é sempre aquele que descreve os fatos da forma mais completa, elegante, simples e coerente com as evidências experimentais. No caso da Teoria da Evolução, esse modelo está sujeito a correções e aprimoramentos, mas ao contrário do que alguns afirmam por aí não passa por crise alguma no seio da comunidade científica.


Oxford, 7/11/2014
Tive o privilégio de visitar o Museu de História Natural de Oxford onde o Grande Debate aconteceu justamente uma semana antes do início do Segundo Primeiro Congresso Brasileiro do Design Inteligente. A sensação que tive ao entrar no prédio foi de estupefação com a grandiosidade do lugar. Senti a vibração da história que aconteceu ali, e do debate que ajudou a estabelecer a unanimidade entre os cientistas sobre a Teoria da Evolução. Muito se aprendeu desde então. A existência do DNA, seu papel como vetor do código genético, sua estrutura e relativa fragilidade frente a mutações. Hoje não é possível conceber alguém estudar seriamente os seres vivos sem entender muito bem o processo evolutivo e a seleção natural. Durante a visita ao museu comparamos o peso de dois ossos aparentemente iguais e homólogos, um deles (de uma ave) muito mais leve que o outro (de um mamífero). A seleção natural tem consequências palpáveis.

É triste constatar que 154 anos depois um grupo de religiosos, entre eles alguns poucos com treinamento em ciência, organizam na minha querida cidade adotiva um encontro no qual vão tentar travestir suas crenças como "ciência" e assim apresentá-las à sociedade. Infelizmente cultura científica não tem sido uma prioridade em políticas públicas no Brasil e muita gente vai achar que o palavreado sofisticado tem algum fundamento científico. Pior, os adeptos do intelligent design vão propor que a educação pública brasileira dê um enorme passo para trás ensinando ideias obsoletas há tanto tempo, compatíveis com uma peculiar leitura dos livros sagrados de uma certa vertente de uma certa religião monoteísta popular no mundo ocidental. Curiosamente a referência ao plano de ocupar escolas e universidades públicas foi retirado da página do evento.

Nota de 10 libras comemorando Darwin

A sociedade brasileira precisa dizer NÃO a essa iniciativa, parte de uma agenda obscurantista que quer desesperadamente se estabelecer por aqui. Não nos deixemos enganar por pseudocientistas que não são referendados por nenhuma instituição científica ou universitária com peso acadêmico relevante. Os cientistas até hoje não propuseram uma alternativa melhor que a Teoria da Evolução. Sem dúvida ela pode ser aperfeiçoada, mas isso só ocorrerá a partir da observação de fatos e não a partir de crenças religiosas. Design inteligente NÃO é ciência.

Esse primeiro texto da minha vida sobre evolução, apesar de adeptos do intelligent design seguidamente me taxarem de evolucionista, é dedicado aos amigos e colegas do curso English as a Medium of Instruction que ocorreu em Oxford na primeira semana de novembro de 2014. Agradeço ao British Council por ter proporcionado essa iniciativa.

Upideite 17/11/2014: A recém criada Sociedade Brasileira do Design Inteligente rejeitou o ensino do assunto em aulas de ciência em um manifesto  público. No entanto manifesto contém palpites cientificamente desqualificados a respeito do ensino da Teoria da Evolução. Não deixo de lembrar uma frase ótima atribuída ao D. João VI: "Quando não sabemos o que fazer (dizer), o melhor é não fazer (dizer) nada".

domingo, 12 de outubro de 2014

O Segundo Primeiro Congresso Brasileiro do Design Inteligente


Entre 14 e 16 de novembro próximo ocorrerá no sofisticado hotel Royal Palm Plaza em Campinas o Segundo Primeiro Congresso Brasileiro do Design Inteligente. Eu não errei na edição nem você leu errado. Trata-se do Segundo Primeiro Congresso Brasileiro do Design Inteligente (SPCBDI). O Primeiro Primeiro Congresso Brasileiro do Design Inteligente ocorreu (ou pelo menos foi anunciado) em 10 e 11 de dezembro 2010 no mesmo local. O SPCBDI não seria mencionado aqui no Cultura Científica se não fosse por dois motivos:
  1. Ele se apresenta à sociedade como um congresso científico, mas como vou argumentar adiante ele é na verdade um evento pseudo-científico.
  2. Mais grave, os organizadores pretendem divulgar o "Primeiro Manifesto público TDI-BRASIL sobre o ensino da evolução e do Design Inteligente em nossas escolas e universidades públicas". Ou seja, pretendem trazer ao Brasil o ensino de pseudo-ciência como se fosse ciência, repetindo a tática que usaram e foi refutada nos Estados Unidos.
A aula de hoje sobre "design inteligente" em biologia terminou. Agora vamos começar a aula de "geografia inteligente"...
A Teoria do Design Inteligente (TDI) é uma manifestação contemporânea do argumento teleológico.  Esse argumento consiste em supor a existência de uma entidade inteligente no universo, baseado na percepção de supostas evidências para um projeto deliberado na natureza e no universo físico. No TDI, essa percepção envolve conceitos como complexidade irredutível, ou homoquiralidade em sistemas biológicos, que seriam evidências de que o processo evolutivo não poderia ter ocorrido por acaso. Na verdade, ela resulta de uma compreensão limitada e enviesada da Teoria da Evolução e da origem do universo por parte de seus proponentes. Não por acaso, eles escolheram Charles Darwin como seu inimigo maior não cansam de afirmar que a base da biologia contemporânea "é apenas uma teoria".
Já ha muitos anos o movimento TDI perde importância nos Estados Unidos, onde ganhou muita visibilidade nos anos 1980 e 90. Lá há uma forte tradição religiosa que entre outras fez com criacionismo fosse ensinado nas escolas públicas como uma alternativa ao modelo científico das origens do universo e da vida.  Em 1987 a Suprema Corte decidiu no processo Edwards vs. Aguillard que o ensino de criacionismo nas escolas violava a Constituição. O criacionismo voltou aos bancos escolares na forma de TDI. Adeptos da TDI se dizem cientistas e afirmam que sua teoria é científica. Só que o TDI não segue o metodo científico e não pode ser considerada ciência. Isso desagradou pais de 11 alunos no Distrito de Dover, Pennsylvania, que abriram o processo Kitzmiller vs. Dover Area District. Eles não queriam que pseudo-ciência fosse ensinada a seus filhos na escola. Em 2005 o juiz decidiu que TDI é uma forma disfarçada de religião e não deve ser ensinado como ciência nas escolas públicas. Esse episódio é muito bem contado no documentário da BBC A War on Science, que apresenta a argumentação do TDI e da ciência.
Cabe sempre lembrar que artigos usando argumentos de TDI nunca foram aceitos para publicação nos periódicos científicos mais prestigiosos. TDI não é ciência, mas tem todas as características de pseudo-ciência: ideias não-científicas ou anti-científicas apresentadas com roupagem científica. Obviamente, se seus argumentos fizessem sentido ou trouxessem uma explicação melhor para a evolução do que o que temos, atualmente ela seria aceita nos meios científicos.
No Brasil o movimento de TDI se confunde com o criacionismo cristão e uma leitura literal do Novo Testamento. Ele está intimamente ligado ao crescimento das religiões protestantes e a uma forma particular de pregação religiosa. Isso tem consequências na política, nos meios de comunicação e obviamente na sociedade como um todo.
Ultimamente, entidades e pessoas religiosas vêm buscando legitimar o TDI no meio acadêmico brasileiro. A Universidade Presbiteriana Mackenzie organizou eventos para "discutir" o darwinismo hoje. Esses eventos na realidade eram um palco para adeptos do TDI mostrar suas ideias em uma universidade. Nunca um especialista em evolução esteve entre os palestrantes. Essa certamente não é uma boa estratégia para uma universidade protestante privada brasileira que busca ganhar prestígio científico com iniciativas como um Centro de Pesquisas em Grafeno. Isso foi comentado aqui no Cultura Científica mais de uma vez.
No ano passado um evento de TDI na Unicamp foi cancelado na última hora devido a manifestações de professores (eu entre eles) preocupados com as consequências simbólicas que ele poderia ter para a universidade. A Unicamp é uma das melhores universidades da América Latina. Ganhou esse prestígio a custa de muito trabalho e publicações em periódicos sérios. Não havia nenhuma razão para emprestar esse prestígio a um movimento pseudo-científico.
Então começou a ser organizado o Congresso de TDI, em Campinas mas fora da Unicamp. É um direito das pessoas se reunirem para tratar de qualquer assunto, científico ou não, desde que não violem as leis do país. Só que o congresso foi anunciado na lista de emails oficial da Unicamp como "um evento histórico", o que causou novamente protestos. Rapidamente o anúncio foi retirado de sua página. A mesma coisa ocorreu na página da Sociedade Brasileira de Química, onde um anúncio similar apareceu e foi retirado em 2 dias. Ironicamente, imediatamente foi anunciada a conferência de Donna Blackmond sobre "A Origem da Homoquiralidade nos Seres Vivos" na 38ª Reunião Anual da SBQ. A Profa. Blackmond é uma das maiores autoridades mundiais no assunto. Homoquiralidade é uma das supostas evidências para a TDI, propalada por pessoas que têm um entendimento limitado da termodinâmica, como já demonstrado pelo grupo da Dra. Blackmond.

O Segundo Primeiro Congresso Brasileiro do Design Inteligente apresenta sina
    is de ser de um encontro pseudo-científico. Como comparação, busque na web qualquer encontro científico sério para notar as diferenças:
    1. Na página de Notícias do SPCBDI há links para notícias sobre o evento. Todas (ou quase) são para páginas evangélicas como Púlpito Cristão, Gospel Prime, ANAJURE, etc. Congressos científicos são noticiados em páginas de sociedades científicas, financiadoras da ciência e universidades sérias. Não há nada mais óbvio para um evento de cunho religioso do que ser noticiado em blogs e páginas religiosas.
    2. O SPCBDI tem um "Comitê Científico", que corresponde ao Comitê de Programa. Esses comitês são em geral formados por professores experientes e exponentes da pesquisa na indústria ou institutos sérios, e têm como função decidir o programa do evento. Não precisa apresentar os currículos dos membros pois a comunidade os conhece e respeita. No SPCBTDI os 104 membros (da última vez que contei, mas está aumentando a cada dia) apresentam um currículo. Pouquíssimos se descrevem como especialistas em TDI (na verdade um ou outro). O comitê é na verdade um grupo de apoiadores do movimento, creio eu que em sua enorme maioria evangélicos, muitos com credenciais científicas incompatíveis com a participação em um comitê de programa. Nenhum membro do comitê científico tem em seu currículo publicações científicas sérias envolvendo TDI porque TDI não consegue ser publicada em periódicos científicos sérios. TDI é pseudo-ciência.
    3. Congressos científicos têm como patrocinadores em geral agências de fomento, universidades prestigiosas, fabricantes de equipamento relevante para o meio. Congressos pseudo-científicos podem ser patrocinados por fábricas de esquadrias, concessionárias de veículos, fábricas de colchões e universidades evangélicas.
    Causa especial preocupação o tal documento que tentará introduzir pseudo-ciência nos currículos escolares ou de ensino superior público, como uma alternativa "democrática" à ciência, para que os estudantes "possam ouvir todos os lados" e fazer escolhas. Infelizmente argumentos desse tipo costumam ser usados com pessoas de boas intenções, com espírito democrático mas que não conhecem ciência e o processo de pesquisa científica. Teoria científicas não se impõem porque estão escritas em livros sagrados, mas porque são as que melhor dão conta dos fatos.

    Ensinar religião como se fosse ciência nas escolas seria um enorme retrocesso para nossa educação. Nenhum cientista em sã consciência iria a um terreiro de candomblé dizer que os orixás não criaram e controlam o mundo, ou na igreja evangélica dizer que o mundo não foi criado em 6 dias.

    Melhor deixar a ciência na escola, a religião nos templos.

    Upideite 14/10/2014: Foi publicado hoje no blog Teoria de Tudo, do Rafael Garcia, um ótimo texto acerca do debate científico sério sobre evolução. Ele faz referência a dois artigos na Nature em que são confrontadas as ideias dos defensores da chamada Síntese Evolucionária Estendida  (SEE) com a Teoria Evolucionária Padrão (TEP). Os defensores da primeira afirmam que há uma revolução da compreensão que temos da biologia no horizonte pois segundo eles "indutores importantes da evolução, que não podem ser reduzidos a genes, devem ser incorporados ao âmago da teoria evolucionária". Os defensores da TEP dizem que não há dificuldades fundamentais em incorporar mecanismos não-genéticos à compreensão da evolução. Eu particularmente concordo com o Rodrigo na análise: Se por um lado a SEE pode ter ingredientes importantes para expandir nossa compreensão do processo evolutivo, ela não apresenta nenhum rompimento paradigmático com a TEP. É assim que a ciência de verdade avança. Sem recorrer ao sobrenatural ou a divindades inteligentes.

    Upideite 11/11/2014: O programa do encontro está fechado. O evento vai terminar "com chave de ouro" com a palestra de um Físico. Para provar o ouro da chave o currículo do palestrante é apresentado, com uma certa pompa e aparece até o título do artigo publicado no J. Vac. Sci. & Tech. A em 1992. Só tem um problema: Em geral currículos de Físicos não citam o nome de cada artigo publicado. Uma rápida busca no Lattes confirmou o que eu temia: O palestrante publicou um único artigo em toda sua carreira. Isso não é errado nem negativo, mas dá uma ideia do padrão científico do evento.


    domingo, 15 de junho de 2014

    A Guerra das Vitaminas: O dia D

    ResearchBlogging.org
    Tivemos vários assuntos polêmicos provocados pela seção Tendências/Debates da Folha de São Paulo recentemente. Um deles rendeu uma batalha de cartas no Painel do Leitor do mesmo jornal. Fiquei um pouco surpreso com a agressividade implícita em algumas cartas, mais comum em debates apaixonados do que científicos. Uma busca no Google mostrou que isso é só a ponta de um enorme iceberg de ciência mal feita.
    Para mim a história começa antes. No ano passado minha filha mais velha teve receitada uma
    complementação de vitamina D. Um teste de laboratório mostrou que ela tinha insuficiência dessa vitamina. A endocrinologista, que também cuida de mim há mais de uma década, me disse que não é nada para se preocupar, é comum jovens em Campinas terem insuficiência de vitamina D por não se exporem o suficiente ao sol. Efetivamente complementação oral de vitamina D é recomendada a pessoas com carência dessa vitamina, e aparentemente só nesse caso.
    Em 8/5/14 o Prof. Morton Scheinberg da USP e do Hospital Israelita Albert Einstein, publicou no T/D texto O mito da vitamina D. A resposta no T/D veio no dia 2/6/14 por parte do Prof. Cicero Galli Coimbra, da UNIFESP e do médico e ex-deputado federal Walter Feldman: A verdade sobre a "vitamina" D. Logo começaram as cartas: O Prof. Scheinberg no dia 3/6/14 escreve ao Painel do Leitor afirmando que "Recomendar doses elevadas de vitamina D como terapia inovadora para doenças autoimunes carece de fundamento científico.". No dia 4/6/14 o médico e ex-deputado Feldman lançou o livro de sua autoria Vitamina D e Esclerose Múltipla - A Chave Brasileira das Doenças Autoimunes. O lançamento contou com a presença de políticos, jogadores de futebol, chiques e famosos. Teve até cobertura por um programa de TV de gosto duvidoso. O Painel do Leitor de 8/6/14 da Folha publicou carta do Prof. Tarso Adoni em que ele afirma que "Os autores agem de má-fé ao assumirem uma relação causal entre deficiência de vitamina D e o aparecimento de uma doença autoimune tão complexa como a esclerose múltipla." O Painel do Leitor do dia 11/6/14 discute o assunto. O Prof. Tarso Adoni insiste que não há comprovação científica para esse tipo de terapia. Marcelo de Palma e Sergio de Palma, vice-presidente e secretário do Instituto de Autoimunidade saem em defesa de Coimbra e Feldman citando "vasto respaldo científico de extrema confiança"; Michele Sallum, pedagoga de Curitiba sugere que o Prof. Adoni está mal-informado e "pago por algum laboratório para escrever isso"; Carlos Antonio Anselmo Guimarães, médico de Curitiba sugere que se consulte a Colaboração Cochrane, onde a conclusão é que "não há evidências que justifiquem seu [vitamina D] uso". Ana Emilia Gurniak, irmã de paciente em São Paulo se diz indignada com as "absurdas acusações" do Prof. Adoni e "Quem está no dia-a-dia do tratamento sabe muito bem que o ele é eficaz, seguro e barato." Ana C. N. Sasaki, de São Paulo, recomenda cautela ao divulgar resultados sobre o assunto e Maurílio Polizello Jr., farmaceutico de Ribeirão Preto, afirma que "Estatisticamente, mesmo com poucas comprovações científicas, pessoas que desenvolveram doenças autoimunes como esclerose múltipla apresentam níveis muito aquém dos valores mínimos estipulados de vitamina D no sangue." e portanto toma sua dose diária da vitamina. Não consigo entender como uma estatística bem feita pode se contrapor a comprovações científicas.

    O que realmente sabemos sobre a vitamina D?
    Um artigo recente com o sugestivo título Status da Vitamina D em um país ensolarado: onde foi parar o sol? reporta uma preocupante e inesperada carência de vitamina D entre 603 voluntários. Em grandes centros urbanos a exposição ao sol não é suficiente para garantir a síntese de vitamina D nos níveis mínimos recomendados. O artigo recomenda o monitoramento do serum 25 vitamin D (s25(OH)D) mesmo num país ensolarado como o Brasil. Ou seja, é razoável supor que parte importante da população tem carência de vitamina D, e nos casos em que isso se confirma deve ser indicada a complementação.

    O que realmente sabemos sobre esclerose múltipla?
    Não muito. Não sabemos o que a causa. Conhecemos bem os sintomas. Os protocolos de tratamento são tão pouco eficazes que estima-se que 70% dos pacientes recorrem à medicina complementar e alternativa.

    A terapia proposta pelo Prof. Cícero enquadra-se nesse contexto. É uma terapia complementar e alternativa. O "Instituto de Investigação e Tratamento de Autoimunidade"  do qual os senhores de Palma são diretores não é um instituto de pesquisa, mas uma ONG recheada de boas intenções. O presidente é exatamente o Prof. Cícero Galli Coimbra. Três diretores têm o sobrenome de Palma. Um deles provavelmente é um ex-paciente do Prof. Coimbra. No Lattes do Prof. Coimbra não há uma única publicação científica relacionada a Vitamina D e Esclerose Múltipla. Certo está o Dr. Guimarães. O correto nesse caso é consultar a melhor referência sobre o consenso médico do mundo, a colaboração Cochrane: Não há evidências que recomendem o tratamento de esclerose múltipla com vitamina D. O consenso da Academia Brasileira de Neurologia é claro e está em negrito no artigo: "Não há evidência científica para o uso de vitamina D como monoterapia para esclerose múltipla na prática clínica até a preparação desse consenso".

    É possível que o Prof. Coimbra tenha razão e seu protocolo seja realmente revolucionário no tratamento da esclerose múltipla. No entanto, enquanto um estudo duplo-cego aleatorizado não for realizado será impossível saber. Até que isso aconteça o mais prudente é seguir o recomendado no consenso da ABN.

    O Globo Reporter fez uma matéria com um tom meio nacionalista sobre o tratamento do Prof. Coimbra. Ali ele afirma que "não há como você chegar e dizer que precisa de um estudo controlado, porque se você tivesse por exemplo um filho seu com esclerose múltipla, você jamais colocaria essa pessoa, aceitaria que ela fosse para o grupo placebo, para mostrar o quanto ela iria mal”. Se o Dr. Feldman, que não tem treinamento nem experiência em pesquisa afirmasse isso seria ruim mas compreensível. A recusa do Prof. Coimbra a submeter seu protocolo a um estudo duplo-cego aleatorizado é inadmissível.

    Tem razão os doutores Scheinberg, Adoni, Guimarães e Sasaki: atualmente, a panaceia dos doutores Coimbra e Feldman não é mais que uma forma de medicina complementar e alternativa e não tem evidências científicas que justifiquem seu uso como tratamento primário para esclerose múltipla.

    Disclaimer: Não sou pago por laboratório algum para fazer essa análise!

    Upideite 18/6/14: Deu no site da Veja a matéria Vitamina D pode evitar mortes por câncer e doenças cardiovasculares, com referência ao artigo Vitamin D and mortality: meta-analysis of individual participant data from a large consortium of cohort studies from Europe and the United States que foi publicado ontem no British Medical Journal. Vale a pena ler as conclusões do artigo original como um indicador de como se deve proceder em ciência bem feita: "Apesar dos níveis de 25(OH)D variarem fortemente com país, sexo e estação do ano, a associação entre o nível de 25(OH)D e a mortalidade por qualquer causa e por causas específicas é notavelmente consistente. Os resultados de um estudo aleatorizado com grupo de controle testando a longevidade são esperados antes que a suplementação de vitamina D possa ser recomendada para a maioria dos individuos com baixos níveis de 25(OH)D." O grifo é meu.
    Ao contrário do que a Veja afirma, em lugar algum do artigo há alguma indicação de que "a equipe acredita que a pesquisa tem uma grande relevância na saúde pública, mostrando que o combate à deficiência em vitamina D deve ser uma prioridade."

    Upideite 21/6/14: Folha volta a tratar do assunto. Corretamente menciona a falta de comprovação científica para o protocolo do Dr. Coimbra e o consenso da ABN.


    Referências

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    Brum, D., Comini-Frota, E., Vasconcelos, C., & Dias-Tosta, E. (2014). Supplementation and therapeutic use of vitamin D in patients with multiple sclerosis: Consensus of the Scientific Department of Neuroimmunology of the Brazilian Academy of Neurology Arquivos de Neuro-Psiquiatria, 72 (2), 152-156 DOI: 10.1590/0004-282X20130252

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