quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Vi verde luz

Está previsto para o dia 19 de agosto de 2015 na Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp o curso introdutório Viver de Luz . Quando vi o título fiquei muito contente. Entendi que os pesquisadores em genética da Unicamp haviam finalmente conseguido introduzir no genoma humano genes capazes de sintetizar clorofila. Fazendo fotossíntese, finalmente os humanos poderiam dispensar alimentos e viver de luz, como as plantas. Por um instante comecei a imaginar a repercussão que o feito teria. Talvez finalmente uma pesquisa brasileira candidata ao Prêmio Nobel.
Quando parei para ler o conteúdo do curso voltei à dura realidade. Trata-se na verdade de uma mesa redonda da qual participarão um "médico antroposófico" e um "terapeuta, pesquisador de homeostase quântica informacional". Nem vou discutir se medicina "antroposófica" deve ter espaço na universidade. O que será homeostase quântica? Para entender esse sutil conceito é preciso buscar informação na fonte: a página web do Instituto Quantum, aparentemente mantido pelo terapeuta convidado. Minha primeira impressão na página é que se tratava de um lugar que estuda os elementos das terras raras: há um modelo de um átomo de Európio (Eu) na entrada. Curiosamente só com 5 dos 63 elétrons do elemento, num modelo de Bohr simplificado que não faz jus à complexidade dos orbitais f que caracterizam esse elemento.
Segundo o Instituto Quantum, homeostase quântica da essência (não consegui entender se é o mesmo que informacional), é uma "terapia vibracional que ensina as pessoas a adquirirem o autocontrole da saúde emocional, mental e física, capacidade natural do ser humano que depende apenas do correto entendimento de como acessá-la ". Acho que não entendi. Mas onde entra a equação de Schroedinger, a quantização? "Através do estudo quântico dos três elementos da Essência humana, da conscientização, interação e da metodologia correta para manter a harmonia entre eles, as pessoa (sic) além de aprenderem que é possível controlar a mente, as emoções e o corpo físico, aprenderão a viver de maneira saudável e feliz, assumindo o controle de suas vidas e desfrutando da independência adquirida. Aprenderão também que não é preciso acreditar para conseguir alterar os sentimentos, basta querer." Continuei sem entender. Encontrei um vídeo do terapeuta em que ele é mais explícito, com legendas em inglês para mostrar para o mundo que a coisa é séria. Ai meu bom Max Plank, mais um que invoca teu nome em vão...
O entrevistado mostra, em todas suas referências, que tem um entendimento muito particular da Mecânica Quântica, em descompasso com o que qualquer estudante de Física sabe. Em suma, um amontoado de bobagens de auto ajuda, com as palavras que esse pessoal adora: vibrações, quantum, consciência, dessa vez junto com homeostase; no mesmo estilo da aula sobre "Saúde quântica" dada na UNIFESP que já comentei aqui.
Deixar-se enganar por um terapeuta que não entende a Física Quântica e diz bobagens sobre ela é um direito do cidadão. Não há nada de errado em ter crenças esquisitas.
Lamentável é isso se transformar em um evento oficial na Unicamp, com um cartaz exibindo os logos da Universidade e da Faculdade de Ciências Médicas.
O que faz da Unicamp uma das melhores universidades da América Latina é a seriedade e o rigor nas suas atividades. Quando uma unidade da universidade abre espaço para esse tipo de coisa ela está validando pseudociência como se fosse uma atividade científica. É um caminho extremamente perigoso para sua reputação. Não deve haver espaço para atividades pseudocientíficas em universidades sérias. Universidades têm a responsabilidade de mostrar à sociedade o que é possível a partir do conhecimento científico, e indicar a diferença entre ciência e crença de alguns travestida de ciência.
Assim como outros professores da universidade, mandei uma mensagem ao Diretor da FCM alertando para a leviandade por trás da "homeostase quântica", que aliás nunca foi publicada em revista científica séria. Solicitei que a Faculdade retirasse o apoio institucional ao curso. Até agora sem resposta.
Infelizmente parece que a Unicamp está no mesmo perigoso caminho da UNIFESP: confundir o público validando práticas da nova era. Não deve haver espaço para pseudociência na universidade. Como um pacato cidadão pode saber a diferença de eficácia entre a "homeostase quântica" e os cursos com base científica oferecidos pela universidade, se todos são tratados institucionalmente da mesma forma? Qual o interesse em oferecer aos estudantes de medicina e ao público um curso sem base científica?

Ao contrário do que afirmei ironicamente acima, o Eu do átomo do Instituto Quantum não é o símbolo do Európio, mas o pronome pessoal Eu, que para os mecânicos quânticos da nova era deve parecer um átomo de boro...

domingo, 24 de maio de 2015

Why Dawkins matters?

Richard Dawkins está de volta ao Brasil para participar da série Fronteiras do Pensamento. Ele dará palestras em Porto Alegre e São Paulo.

Richard Dawkins é talvez um dos intelectuais mais importantes do nosso tempo. Não por acaso, é o cientista que os criacionistas e adeptos do intelligent design mais adoram odiar e criticar.

Richard Dawkins Cooper Union Shankbone.jpgRichard Dawkins é um biólogo evolutivo que ganhou fama com seu livro O gene egoísta, que foi publicado originalmente em 1976. Esse livro tem como ideia central o protagonismo dos genes no processo evolutivo. A partir dessa ideia Dawkins resolve um paradoxo que me preocupava muito nas aulas de biologia sobre evolução no ensino médio: o que os professores chamavam de instinto de preservação da espécie. Isso faria com que os animais fossem solidários e adotassem estratégias de sobrevivência como um grupo. Eu nunca entendi bem o que faria com que um peixe ou um caramujo ou um polvo sacrificasse sua vida para que seu coleguinha de espécie sobrevivesse. Parecia muito paradoxal para animais com capacidade de raciocínio muito limitada ou nula. Até hoje pessoas escrevem artigos invocando esse "princípio". Na verdade não tinha mesmo o que entender. Usando seu modelo e alguns algoritmos matemáticos Dawkins desvenda o enigma: a razão é simples. Espécies que não apresentam traços de altruísmo e solidariedade simplesmente desaparecem ao longo do processo evolutivo. São extintas. Altruísmo é uma estratégia estável evolutivamente. Ausência de altruísmo não é. Depois de ler a argumentação de Dawkins parece óbvio. A favor de minhas professoras de biologia, é importante notar que que estudei exatamente quando o livro era publicado e naquela época ele não deve ter chegado ao Brasil tão rapidamente. Quando li esse livro, na edição comemorativa ao seu trigésimo aniversário, fiquei tão fascinado que me perguntei se eu não teria seguido uma carreira em biologia evolutiva se o tivesse lido na época certa. As ideias de Dawkins foram fortemente criticadas por pesos pesados da biologia como Ernst Mayr ou Stephen Jay Gould. A ciência funciona assim: evolui a partir de críticas bem embasadas e consistentes.

Richard Dawkins não parou por aí. A Zero Hora propõe a leitura de 5 livros para entendê-lo. Um que eu gosto muito é o Relojoeiro Cego de 1986. Nesse livro Dawkins explica com uma linguagem acessível como é possível a evolução resultar em seres mais complexos sem a intervenção de uma mente suprema. Em outras palavras, é uma excelente aula de recuperação para os adeptos do intelligent design que faltaram à aula sobre segunda lei da termodinâmica, ou nunca a estudaram ou pior, não a entenderam.

Richard Dawkins provavelmente não teria sido convidado para o evento do Fronteiras porque propôs uma teoria que explica o instinto de preservação da espécie,  ou por ter explicado em linguagem simples a segunda lei da termodinâmica para adeptos do intelligent design. Dawkins aborda uma questão fundamental na sociedade contemporânea em seu livro de livro Deus, um Delírio (eu gosto muito mais do título em inglês, The God Delusion). Nesse livro Dawkins toma uma posição extremamente lúcida e corajosa sobre o diálogo ciência-religião. Segundo Dawkins, a existência ou não de um Deus (ou vários Deuses) é uma hipótese científica e pode ser testada. A resposta dos testes até agora tem sido: "Tudo indica que não existe um Deus (ou vários Deuses) determinando os processos naturais." Isso é muito diferente do que outros intelectuais/cientistas vinham afirmando. Para preservar uma boa convivência com o establishment religioso, o já citado Stephen Jay Gould criou a expressão magistérios não-interferentes (Non-overlapping magisteria, ou NOMA). Segundo Gould, "A ciência busca documentar o caráter factual do universo natural e desenvolver teorias que descrevem e explicam esses fatos. A religião, por outro lado, atua no igualmente importante, mas completamente distinto, reino dos propósitos humanos, significados e valores - assuntos que o  domínio factual da ciência pode iluminar mas jamais resolver." Esse dois reinos são o NOMA. Obviamente a visão de Gould é diplomática num contexto em que a grande maioria da população crê em um ou mais Deuses. Dawkins insiste que as pessoas são livres para acreditarem no que querem, mas é um erro estratégico a religião buscar legitimidade no domínio científico. A ciência tem sido bastante compatível com a ideia de que não existe um ou mais Deuses. É exatamente por isso que as ideias de Dawkins vão muito além da sua contribuição à teoria da evolução. É por isso que os religiosos e adeptos do intelligent design odeiam Dawkins e tentam sempre colocar em dúvida sua contribuição à ciência. É por isso que as ideias de Dawkins importam.

Richard Dawkins mantém a Fundação Richard Dawkins para a Razão e a Ciência.

Para quem como eu não poderá assistir as palestras de Dawkins, recomendo assistir os documentários The Root of All Evil e The Enemies of Reason.

O título desse texto é inspirado no livro de Michael Shermer Why Darwin Matters.

Esse post é dedicado a Norma e Duda, minhas professoras de biologia lá nos idos dos anos 70. 

Upideite 29/05/2015: Azar dos azares, Dawkins tropeçou ao entrar no avião e caiu quando ia embora do Brasil. Teve um corte na cabeça que precisou de uma sutura. Contra sua vontade (ele queria ir embora) foi levado a um hospital onde foi suturado. Dois comentários dele dignos de nota:

  1. Ficou impressionado por ter tido que esperar pouco no hospital, comparado com o que esperava a partir de sua experiência com hospitais britânicos.  Ele provavelmente não foi levado a um pronto socorro do SUS.
  2. Nenhum enfermeiro ou paramedico que o atendeu falava uma palavra em inglês. O médico era fluente em inglês. Mais um retrato da sociedade brasileira.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Par ou ímpar?

É comum ultimamente ouvirmos afirmações do tipo "há uma crise na academia" a respeito de determinado assunto. Como é possível saber se essa crise ocorre na comunidade científica acadêmica ou na academia de ginástica frequentada por quem faz a afirmação e sua imaginação?
Para entender isso é preciso antes descobrir como a comunidade científica estabelece o senso comum sobre nossa compreensão do universo que nos cerca.
Há centenas de anos alguns rituais e procedimentos consensuais se estabeleceram para determinar se realmente as ideias correspondem aos fatos ou são pura imaginação.
Um  dos processos mais respeitados e aceitos por todos é a revisão por pares. Ele consiste em
submeter as comunicações científicas a pessoas com largo e estabelecido conhecimento na área para verificarem se o artigo representa de alguma forma um avanço ou uma contribuição relevante.
As revistas mais rigorosas e prestigiosas lançam mão de dois ou três revisores para anonimamente opinarem sobre os artigos submetidos. A aceitação para publicação depende de pareceres positivos dos revisores. O prestígio acadêmico de publicações como Nature ou Science é resultado do rigor e da seriedade de seu processo de revisão.
Não esqueço do orgulho que me tomou quando fui convidado pela primeira vez para ser revisor de um periódico importante. Foi há quase 30 anos no Applied Physics Letters. Para mim significava ser reconhecido como alguém de confiança para ajudar a decidir o que deve e o que não deve ser publicado na minha área. Depois disso me tornei revisor de outros periódicos. Essa é a trajetória normal de cientistas com produção de artigos minimamente relevante. Isso foi em tempos pré-internet, em que o acesso a artigos ocorria unicamente através de periódicos impressos que ficavam na biblioteca. Só era possível ler artigos que tinham passado pelo processo de revisão.
A internet abriu possibilidades nunca antes imaginadas para o acesso à informação. Eu  já comentei isso anteriormente. A internet permite que qualquer pessoa difunda suas ideias, produção artística, científica ou literária sem depender de cair nas graças de um editor ou ter seu artigo revisado por pares. A internet subverte o processo de revisão por pares..
Isso tem vantagens e desvantagens. A desvantagem mais óbvia é a exatamente a mesma que a vantagem: qualquer um pode se dizer artista, escritor ou cientista e divulgar sua produção sem passar por revisão alguma. Pseudocientistas abundam, com sites bem organizados e com aspecto respeitoso. Basta mandar seu artigo para o ArXiv, um impressionante repositório de um milhão de artigos não revisados mantido pela Universidade Cornell. Originalmente a ideia era permitir acesso rápido aos artigos durante o processo de revisão.
No entanto, os periódicos com revisão por pares continuam conferindo prestígio aos artigos neles publicados e são a referência quando falamos da comunidade acadêmica.
Nos últimos anos vem acontecendo uma explosão dos chamados periódicos de acesso livre.  Alguns ganharam rapidamente uma reputação invejável por sua seriedade, dinamismo e obviamente o acesso livre. Esse é o caso por exemplo do PLOS One.
Mas como a internet é livre da noite para o dia surgem periódicos nada sérios. Eles podem ter fins lucrativos, apresentando um processo de revisão por pares absolutamente frouxo ou não existente para que qualquer bizarrice seja aceita mediante uma módica contribuição por parte do autor. é o equivalente a autores de livros que pagam a edição impressa de suas obras medíocres. Esses são chamados apropriadamente de editores predatórios. A outra vertente, com uma agenda política e sme sem fins lucrativos, se dedica a publicar ideias pseudocientíficas e contrárias ao que a comunidade acadêmica aceita como ciência.

Recentemente recebi a mensagem que reproduzo a seguir:

De: ASCITNews
Para: tessler

Dear Tessler, L.R. ,

AASCIT is seeking individuals with diverse areas of expertise to serve as peer reviewers or editorial board members to evaluate papers submitted to AASCIT journals. The peer review process used by AASCIT enhances the efficiency and maximizes the quality of the paper.
After reading your article Structural characterization of ZnO/ Er2O3 core/shell nanowires published in Superlattices and Microstructures, our Editorial Board speak highly of it and think you are qualified to be a Reviewer or Editorial Board Member in our journals to review papers.Now, we sincerely invite you to join us serving as a journal Reviewer or Editorial Board Member and you will get below benefits:

1. Publish your own papers with certain discounts in our journals.
2. Enriching your knowledge and broadening your horizon by reading others’ papers.
3. Get a certificate.

A reviewer's responsibilities include reviewing manuscripts for clarity, accuracy, and research rigor; identifying the strengths and weaknesses of manuscripts and so on. For more details, you can visit: http://www.aascit.org/journals/callforeditorial

You can also visit our journal page to check the journals in which you are interested. If you are interested in becoming a Reviewer or Editorial Board Member, please submit your application through our online system:  http://www.aascit.org/common/login

We are looking forward to your participation.

A tradução corresponde a:
Caro Tessler, L.R. ,

AASCIT está à procura de indivíduos de diversas áreas de especialização para atuar como revisores ou membros do conselho editorial para avaliar os artigos submetidos aos periódicos da AASCIT. O processo de revisão por pares usado por AASCIT aumenta a eficiência e maximiza a qualidade do artigo.
Depois de ler o seu artigo Structural characterization of ZnO/ Er2O3 core/shell nanowires publicado em Superlattices and Microstructures, nosso Conselho Editorial tem falado muito bem dele, o que qualifica você para ser um revisor ou Membro do Conselho Editorial em nossas revistas para avaliar artigos. Então sinceramente convidamos você a se juntar a nós atuando como revisor ou como membro do Conselho Editorial e você terá benefícios abaixo: 

1. publicar seus próprios artigos com descontos em nossas revistas.
2. Enriquecer seu conhecimento e ampliar seu horizonte, lendo artigos de outros autores.
3. Obter um certificado.

As responsabilidades de um revisor incluem a revisão dos manuscritos para clareza, precisão e rigor na pesquisa; identificar os pontos fortes e fracos de manuscritos e assim por diante. Para mais detalhes visite: http://www.aascit.org/journals/callforeditorial

Você também pode visitar a nossa página para verificar as revistas em que você está interessado. Caso você se interesse em se tornar um Revisor ou Membro do Conselho Editorial, por favor, envie seu pedido através do nosso sistema on-line: http://www.aascit.org/common/login


Contamos com a sua participação.

Essa mensagem me chamou a atenção por alguns motivos:

1) O artigo mencionado é um artigo de congresso, com poucas citações na literatura. Não é exatamente o que qualifica um revisor num periódico sério. Eles pelo menos podiam escolher um artigo mais citado para tentar massagear meu ego.
2) Eles me convidam não só para ser revisor de algum periódico, mas também para participar do Conselho Editorial. Nos periódicos sérios isso é  restrito a verdadeiros experts. Mais uma tentativa de massagear meu ego.
3) Eles oferecem vantagens para ser revisor e um certificado. Bom, para o Brasil onde exigem certificado de tudo isso é maravilhoso. Imagine o prestígio que vou ganhar com o certificado de revisor emoldurado na minha sala! 
4) Eu nunca tinha ouvido falar dessa AASCIT (para mim ascite é barriga d'água).

Lá fui eu buscar saber do que se trata a AASCIT. Ela tem um site que parece sério. No entanto uma busca no Google mostra que ela está na lista de editores predatórios Beall's List, na Scientific Scam, e o melhor de tudo, seu site fica na Tailândia e é classificado como de risco, apesar de AASCIT significar Associação Americana (e não tailandesa) de Ciência e Tecnologia.

Ou seja, melhor ficar longe disso.

Agora além de nos preocuparmos com pseudociência precisamos também nos preocupar com pseudoeditoras e pseudoperiódicos.
Há vários exemplos de artigos falsos que foram enviados para testar o sistema de pseudorevisão por pares de pseudoperiódicos com fins lucrativos. O mais engraçado talvez seja o de David Mazières e Eddie Kohler, que submeteram um artigo chamado "Tirem me da merda da sua lista de mail" no International Journal of Advanced Computer Technology. O texto todo do artigo consiste nas palavras Get me off your fucking mail list repetidas ad nauseam. O artigo foi aceito com relatórios muito positivos dos revisores.

Há também os pseudoperiódicos com uma agenda definida, para dar roupagem científica à pseudociência. Aqui no Brasil temos o International Journal of High Dilution Research, que se dedica a divulgar a pseudociência que "valida" a homeopatia. Uma rápida olhada no tipo de artigo ali publicado dá uma boa ideia do que se trata. O pseudocientífico Life, "uma revista internacional de acesso livre, revisada por pares de estudos científicos relacionados a temas fundamentais nas Ciências da Vida, especialmente aquelas relativas às origens da vida e evolução de biosistemas" ficou famoso por artigos que não passariam em lugar algum minimamente sério. Num deles, com o pomposo título Teoria das Origens, Evolução e Natureza da Vida o autor faz um impressionante jogo de palavras sem sentido de mais de 100 páginas, rapidamente analisado por PZ Myers. Outro, "Seria a vida especial?" é realmente especial. Começando pelo endereço que autor apresenta: Department of ProtoBioCybernetics and ProtoBioSemiotics, Origin of Life Science Foundation, Inc., 113-120 Hedgewood Drive, Greenbelt, MD 20770, USA. Como mostrado pelo mesmo PZ Myers, não só essa instituição não existe como o endereço corresponde à casa do autor, David L. Abel.
O próprio Discovery Institute, bastião americano da pseudociência conhecida como Intelligent Design, reconhece a importância da revisão por pares e disponibiliza uma lista de artigos  aceitos supostamente com revisão por pares. A lista inteira foi refutada, artigo por artigo. Desnecessário dizer que pseudociência não passa por revisão por pares séria.

Como saber se realmente há uma crise na academia em relação a determinado assunto? Fácil: busque a informação onde a academia busca: periódicos sérios revisados por pares, não pelos ímpares que estão por aí confundindo a academia de verdade com a academia de ginástica.

Exercício: procure nos periódicos sérios se há alguma dúvida a respeito do processo de seleção natural, ou da evolução.

sábado, 22 de novembro de 2014

A Cunha Tupiniquim

Em 1999 o Discovery Institute, entidade que se dedica a difundir e propagar a pseudociência que eles chamam de intelligent design (design inteligente segundo quem conhece mal a língua inglesa) publicou um documento estratégico. O documento se chama A Cunha. O documento propõe uma estratégia para aceitação e difusão do intelligent design na sociedade americana. O documento é bem estruturado, com objetivos e estratégias a médio e longo prazo.
Os principais objetivos são:
  1. Derrotar o materialismo científico e suas heranças moral, cultural e política.
  2. Substituir as explicações materialísticas pela compreensão teística de que a natureza e os seres humanos foram criados por Deus.
Quando eu li isso pela primeira vez, somado aos grafismos tão amadores e fontes de tão mau gosto, minha primeira reação foi achar que se tratava de uma fraude/piada, no estilo do Flying Spaghetti Monster. Não era. O documento é autêntico. A Estratégia da Cunha consiste em introduzir as ideias do intelligent design por alguma fresta e ir progressivamente expandindo sua influência, como uma cunha em madeira (dãããã). A estratégia inicial era fazer o intelligent design ser aceito como uma alternativa nas ciências e na pesquisa científica. Isso deveria ser acompanhado por debates em instituições de ensino e na vida em geral.

Ensine as duas teorias... Deixe as crianças decidirem. 

Felizmente a estratégia da cunha falhou fragorosamente nos EUA. Nenhuma universidade séria realiza palestras ou debates sobre o assunto (OK, o orientador do William Dembski o convidou para dar um seminário na Universidade de Chicago, mas isso não teve grandes consequências e suscitou protestos na universidade), e as tentativas de propor a interpretação do intelligent design nos currículos de ensino médio foi amplamente rechaçada. Como alertou o emérito educador Mark Terry, "Só uma revolução científica esquisita busca estabelecer sua posiçao nos currículos de ensino médio antes que a pesquisa tenha sido comprovada. Esse óbvio obstáculo será removido se a revolução for efetivamente baseada numa redefinição da ciência em lugar de novas pesquisas".

A Sociedade Brasileira do Design Inteligente foi fundada recentemente lançando um manifesto que equivale a uma carta de intenções. Esse manifesto repete, de forma adaptada às condições locais, exatamente a Estratégia da Cunha:
  1. Não são favoráveis, na atual conjuntura acadêmica,  ao ensino da Teoria do Design Inteligente (TDI) nas escolas e universidades brasileiras públicas e privadas, como também nas confessionais.
  2. Criticam o ensino da Teoria da Evolução invocando um "direito constitucional dos alunos de serem informados que há uma disputa já instalada na academia entre a Teoria da Evolução e o intelligent design quanto à melhor inferência científica sobre nossas origens". Eles devem estar se referindo à academia de ginástica ondem praticam seus abdominais. Na academia científica, onde a ciência avança através de publicações em periódicos sérios, não há disputa alguma. As discussões sérias sobre Evolução passam longe do intelligent design.
  3. Para se diferenciar do criacionismo estritamente religioso eles o enviam para "aulas de filosofia e teologia". É uma estratégia para parecerem científicos.
Intelligent design é religião disfarçada. Eles professam exatamente as mesmas ideias que os criacionistas assumidos, mas com uma roupagem pseudocientífica. É assim: a vida e o surgimento dos seres humanos não pode ter resultado da seleção natural (acho que todos os apoiadores do intelligent design faltaram às aulas de termodinâmica) e exige uma inteligência superior que decide os destinos do universo. Essa inteligência superior não precisa ser o Deus cristão, mas tem todas as características dele.

Será que a estratégia da cunha está funcionando nas terras tupiniquins?

Parece que sim.
O folclórico deputado Marco Feliciano apresentou o projeto de lei 8.099/14, que propõe o ensino de criacionismo nas escolas. O Partido dos Trabalhadores corretamente decidiu denunciar e apresentar críticas ao projeto em sua página. No entanto, o partido errou fortemente ao consultar sobre o assunto não uma sociedade científica séria como a SBPC ou a Academia Brasileira de Ciências, mas justamente a pseudocientífica Sociedade Brasileira do Design Inteligente (só não tem link porque eles não têm página na web ainda). Que posa de defensora da ciência "que o mundo empírico nos revela".

É péssimo para a ciência brasileira que o partido do governo reconheça uma sociedade pseudocientífica como autoridade acadêmica. Espero que as sociedades científicas sérias em algum momento desautorizem publicamente a Sociedade Brasileira do Design Inteligente.

O Presidente Executivo da Sociedade Brasileira do Design Inteligente afirma no Facebook que estará "em breve submetendo uma carta às sociedades e periódicos científicos brasileiros defendendo o ensino da TDI".
Será uma ótima oportunidade para que as sociedades e periódicos científicos brasileiros tomem uma posição relegando pseudociência ao seu lugar e bloqueando definitivamente a Estratégia da Cunha Tupiniquim.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Darwin e a Catedral

A Catedral da Ciência hoje em dia.
O ano era 1860. A Associação Britânica pelo Progresso da Ciência, que havia sido fundada em 1831 para encorajar o debate público e o entendimento da ciência decidiu realizar seu encontro anual em Oxford. O encontro marcaria a inauguração da nova 'catedral da ciência', o Museu de Oxford (atualmente Museu de História Natural da Universidade de Oxford). Catedral da Ciência é uma denominação mais que adequada para o local, que ainda hoje impressiona quem o visita: um grande galpão de tijolos com um pé direito de uns 10 metros e um telhado de vidro suportado por uma estrutura de ferro vitoriana, no melhor estilo das estações de trem vitorianas e lembrando muito uma catedral com telhado de vidro. Como todos os anos, o encontro reuniria o que havia de importante na ciência da época. Foi lá que ocorreu O Grande Debate.
Um dos livros mais importantes da história, Sobre a Origem das Espécies por meio da Seleção Natural havia sido publicado somente sete meses antes por Charles Darwin. O próprio Darwin não pode comparecer. Sua saúde frágil o levou a uma temporada de curas em Surrey. O Vice-presidente honorário do encontro era o Bispo de Oxford, Samuel Wilberforce. Wilberforce era um inimigo implacável das idéias evolucionistas.

Na quinta-feira 28 de junho o Professor Charles Daubeny apresentou seu artigo "Sobre as causas finais da sexualidade em plantas, com referência particular ao trabalho do Sr. Darwin...". Isso é ciência acontecendo: um pesquisador desenvolve ideias de outro pesquisador no sentido de avançar um modelo coerente da natureza. Richard Owen, contestou fazendo a afirmação exagerada que o cérebro de um gorila era mais diferente de um humano do que dos primatas inferiores. Thomas Henry Huxley, apelidado "o buldog de Darwin" por sua defesa apaixonada das ideias da evolução, era conhecido por usar a similaridade entre os cérebros dos primatas como evidência para a evolução, levantou-se e contradisse Owen educadamente. A discussão continuou nos bastidores até que na noite de sexta-feira um Huxley exausto decidiu ir para casa. Robert Chambers, outro evolucionista, pediu que ele ficasse.

Na manhã de sábado o melhor da ciência britânica se reuniu junto com uma multidão de estudantes de Oxford, clérigos além de damas e cavalheiros locais na sala de leitura da biblioteca no primeiro andar do museu. Estima-se que cerca de 700 pessoas estavam presentes. O encontro foi coordenado pelo Reverendo John Stevens Henslow, professor de botânica de Darwin em Cambridge e amigo de longa data.
A principal apresentação dessa sessão seria por parte do Dr. John W. Draper, da New York University, que leu um artigo longo e chato 'Sobre o desenvolvimento intelectual da Europa, considerado com referência às ideias do Sr. Darwin e outros, que a progressão dos organismos é determinada por uma lei'. Quando ele terminou, Henslow abriu a sessão para um debate. Algumas intervenções foram saudadas por ruidosas vaias por parte dos estudantes. Depois disso ele autorizou somente intervenções que não fossem 'mera difamação'.
Wilberforce foi então convidado a se manifestar. Ele usou os mesmos argumentos empregados na sua resenha anônima do livro de Darwin, que apareceriam um mês depois no Quarterly Review. Sua retórica às vezes lógica, às vezes pobre, sempre rebuscada cativou a audiência e foi saudada por damas acenando seus alvos lenços, estudantes assobiando nas últimas filas, clérigos aplaudindo. No final de sua intervenção, Wilberforce teria feito a famosa provocação a Huxley: "é do lado de sua avó ou de seu avô que o senhor descende de um macaco?", ao que Huxley teria respondido "Se a questão é se eu prefiro ter como avô um macaco do que um homem altamente favorecido pela natureza, possuidor de grandes meios e influência e que ainda assim usa isso com o mero propósito de introduzir o ridículo numa discussão científica tão séria e importante, eu sem hesitar afirmo minha preferência pelo macaco". Há controvérsias sobre se essa troca de insultos realmente aconteceu, mas a história é muito boa. Claro que os dois lados afirmam ter ganho o debate, mas isso é irrelevante. O episódio ilustra bem alguns pontos sobre os quais tenho insistido:

1) Discussão científica só ocorre quando uma proposta aprimora ou quebra velhos paradigmas. No caso, estamos falando de um modelo científico (a Teoria da Evolução e a Seleção Natural) que descreve de forma bastante completa a biodiversidade e os fósseis recém proposto em contraposição com os dogmas cristãos, que propunham a criação do universo e de todas as formas de vida por um ser superior todo-poderoso em 6 dias há pouco menos de 6000 anos. Não faz o menor sentido voltar a um modelo da evolução que exige um ser sobrenatural guiando o processo quando um modelo naturalista é perfeitamente capaz de dar conta dos resultados experimentais.

2) O melhor modelo não é decidido a favor de quem tem a melhor retórica, ou xinga mais, ou é mais aplaudido, ou faz o mimimi de se considerar boicotado pela comunidade científica, ou tem um blog cheio de gracejos e palavras difíceis sem significado nenhum. O melhor modelo é sempre aquele que descreve os fatos da forma mais completa, elegante, simples e coerente com as evidências experimentais. No caso da Teoria da Evolução, esse modelo está sujeito a correções e aprimoramentos, mas ao contrário do que alguns afirmam por aí não passa por crise alguma no seio da comunidade científica.


Oxford, 7/11/2014
Tive o privilégio de visitar o Museu de História Natural de Oxford onde o Grande Debate aconteceu justamente uma semana antes do início do Segundo Primeiro Congresso Brasileiro do Design Inteligente. A sensação que tive ao entrar no prédio foi de estupefação com a grandiosidade do lugar. Senti a vibração da história que aconteceu ali, e do debate que ajudou a estabelecer a unanimidade entre os cientistas sobre a Teoria da Evolução. Muito se aprendeu desde então. A existência do DNA, seu papel como vetor do código genético, sua estrutura e relativa fragilidade frente a mutações. Hoje não é possível conceber alguém estudar seriamente os seres vivos sem entender muito bem o processo evolutivo e a seleção natural. Durante a visita ao museu comparamos o peso de dois ossos aparentemente iguais e homólogos, um deles (de uma ave) muito mais leve que o outro (de um mamífero). A seleção natural tem consequências palpáveis.

É triste constatar que 154 anos depois um grupo de religiosos, entre eles alguns poucos com treinamento em ciência, organizam na minha querida cidade adotiva um encontro no qual vão tentar travestir suas crenças como "ciência" e assim apresentá-las à sociedade. Infelizmente cultura científica não tem sido uma prioridade em políticas públicas no Brasil e muita gente vai achar que o palavreado sofisticado tem algum fundamento científico. Pior, os adeptos do intelligent design vão propor que a educação pública brasileira dê um enorme passo para trás ensinando ideias obsoletas há tanto tempo, compatíveis com uma peculiar leitura dos livros sagrados de uma certa vertente de uma certa religião monoteísta popular no mundo ocidental. Curiosamente a referência ao plano de ocupar escolas e universidades públicas foi retirado da página do evento.

Nota de 10 libras comemorando Darwin

A sociedade brasileira precisa dizer NÃO a essa iniciativa, parte de uma agenda obscurantista que quer desesperadamente se estabelecer por aqui. Não nos deixemos enganar por pseudocientistas que não são referendados por nenhuma instituição científica ou universitária com peso acadêmico relevante. Os cientistas até hoje não propuseram uma alternativa melhor que a Teoria da Evolução. Sem dúvida ela pode ser aperfeiçoada, mas isso só ocorrerá a partir da observação de fatos e não a partir de crenças religiosas. Design inteligente NÃO é ciência.

Esse primeiro texto da minha vida sobre evolução, apesar de adeptos do intelligent design seguidamente me taxarem de evolucionista, é dedicado aos amigos e colegas do curso English as a Medium of Instruction que ocorreu em Oxford na primeira semana de novembro de 2014. Agradeço ao British Council por ter proporcionado essa iniciativa.

Upideite 17/11/2014: A recém criada Sociedade Brasileira do Design Inteligente rejeitou o ensino do assunto em aulas de ciência em um manifesto  público. No entanto manifesto contém palpites cientificamente desqualificados a respeito do ensino da Teoria da Evolução. Não deixo de lembrar uma frase ótima atribuída ao D. João VI: "Quando não sabemos o que fazer (dizer), o melhor é não fazer (dizer) nada".
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